JOAO BEZ BATTI

BEZ BATTI

O PROFETA DAS PEDRAS... Nasceu em Venâncio Aires (RS) em 1940.

Estudou desenho com Vasco Prado e Zorávia Bettiol, de 1959 a 1964. Expõe desde 1962. Sua primeira individual foi no ateliê de Vasco e Zorávia.

Domina o mármore, bronze e madeira. Em 1977 expôs no Centro de Estudos Brasileños, Buenos Aires, e, em 1978, na extinta Galeria de Arte do Clube do Comércio, Porto Alegre, ano em que cria o troféu Tibicuera. Também trabalha com o basalto.

A figura humana é dominante em seus trabalhos. Participou de importantes coletivas no País e exterior. Foi incluído e focalizado por Armindo Trevisan em Escultores contemporâneos do rio Grande do Sul.

Tem realizado exposições em Porto Alegre, com regularidade, nos últimos vinte anos. Em 1994 foi lançado livro-solo com texto do jornalista Carlos Urbim. Vive em Bento Gonçalves, RS, onde mantém ateliê.

Ele conversa, escuta, lê os pensamentos das rochas. É imensamente apaixonado a ponto de dormir com um seixo nos pés e outro nas mãos.

 Nasceu escultor. E pretende morrer pedra.

 Sua rotina é esculpir basalto no ateliê em Bento Gonçalves, cidade de 100 mil habitantes, situada a 113 quilômetros de Porto Alegre.

 – Meu pai ralhava: joga a pedra fora, meu filho. E eu queria levar para casa, cuidar, dar família.

 A pedra foi seu boneco, seu travesseiro, sua namorada, seu amigo imaginário, sua pandorga, sua estrada, seu caderno, seu lápis, seu pião, seu analista.

 – Eu me achava esquisito, sofri muito com o preconceito por guardar entulhos no quarto. Não tive berço, mas carrinho de mão.

 Penúltimo dos cinco irmãos, o pai transbordava seriedade e castigo. Não admitia seus devaneios de artista, onde enxergava figuras escondidas nas nuvens e nos móveis.

 – Acho que vim tarde demais, quando meu pai já era infeliz. Não trocou 10 palavras comigo a vida inteira.

 O coração paterno era também de pedra. Não é por nada que carregou seu nome. Pai de pedra, filho de pedra.

 – O som é a radiografia da pedra. Pela batida, sei se tem fissura e localizo as falhas por dentro.

 A intimidade não é exagero lírico. Até seu cachorro Guadalupe não apanha galhos e madeiras como os demais cães. O pastor alemão transporta tijolos com a boca.

 Bez Batti foi um suicida ao contrário. Furtava o revólver da família para servir de inspiração. Tentava imitar as curvas da coronha.

 – Peguei em armas para defender minha criatividade.

 O que salvou um dos principais criadores brasileiros foi o Rio Taquari, o qual caracteriza como seu primeiro professor.

 – O rio lecionou para mim. Caminhar nos cascalhos é tatear as formas. Descobri que a pedra é uma imensa pálpebra, tem olhos soterrados, precisamos de paciência de água. A pedra só se abre para quem ela confia.

 Poeta ao natural, Bez Batti não cuida de contas, nem mesmo da finança ou da venda de seu catálogo. Permanece enfurnado em tempo integral nas distrações. Ou está talhando prováveis obras no escritório, armado medievalmente de avental, botas e máscara de couro, ou brinca com seu gato Nino ou visita o cemitério municipal, seu museu preferido, em que admira bustos, anjos e estátuas.

 Transfere a responsabilidade do mundo prático para sua esposa de quatro décadas, Maria Shirley, 69, advogada e professora aposentada, com quem partilha dois filhos (Diego e Melissa) e dois netos (Maria e Nathan).

 – Todo dia meu marido volta para sua infância. E espero-o de noite, torcendo para que se transforme em adulto – confessa Shirley.

 Atualmente, Bez está confeccionando uma nova série “Autorretrato aprisionado”. Procura imprimir uma feição que seja uma blasfêmia, transtornada e raivosa como a de Brutus de Michelangelo.

 – Quero fazer algo que nunca foi visto. Ouço o conselho das pedras porque elas viram mais do que eu e me avisam se estou copiando algo ou inventando.

 Para atingir o objetivo, pesquisa matéria-prima pelo Rio Grande do Sul. Vem batizando o basalto: preto (Bento Gonçalves), sanguíneo (Caxias do Sul) e cacau (Vacaria).

 – Sou um geólogo dos sonhos.

 Os vizinhos não diferenciam o que é pedra da paisagem do que é coleção. São mais de 10 mil fragmentos recolhidos desde a primeira série.

 – Não descarto nada. A pedra é inimitável.

 Livre, selvagem, curioso, Bez Batti rejeita encomendas, é contra a ditadura temática.

 – Não farei um garrafão de vinho por morar em Bento. Crio o que falta, não reproduzo o que existe.

 Seus trabalhos costumam demorar 10 anos. Inicialmente, ele desenha, em seguida identifica o material adequado e, por fim, lapida.

 – O mais difícil é definir o momento de parar o ponteiro, quando a escultura está pronta. Depois de passar do ponto, não tem como corrigir. Rocha não tem rascunho. Uma lasca errada e sacrificamos o trabalho.

 Seu maior desejo é apanhar um rosto antes de chegar ao ventre feminino. Como um profeta, antecipar o nascimento de alguém.

 – A pedra gera minhas crianças.

 E ainda dizem que os homens não ficam grávidos.

Fabricio Carpinejar

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